À mesa, o legado do Funk também tem sabor

Do Rio de Janeiro para o Mundo

 

Há histórias que não terminam quando o evento acaba. Algumas permanecem na memória, nos encontros, nas amizades construídas e, principalmente, nos sabores que carregamos conosco. Esta matéria tem um sabor especial para mim.

 

Tive a honra e o privilégio de participar de todas as edições do projeto O Legado do Funk, ao lado do meu grande amigo, DJ Marlboro, um dos grandes ícones da música funk, reconhecido como um dos pioneiros e uma das figuras fundamentais na história do gênero.

 

Ao longo desses meses, tive a oportunidade de conhecer não apenas o artista, mas também o homem por trás das pick-ups: Fernando. Um ser humano de coração enorme, generoso, que me abriu portas e me permitiu fazer parte de uma história que ultrapassa a música.

 

E, como toda boa história, a nossa também foi construída à mesa.

 

Minha cozinha acompanhou essa viagem pelo tempo e pelo mundo. Cada edição representava uma década do funk, e eu procurei dar apresentar em cada prato, uma identidade e uma memória gastronômica própria.

E foi na Espanha que essa história começou.

 

Na primeira edição, a protagonista foi a Paella Valenciana de frutos do mar. Um prato generoso, vibrante e cheio de personalidade, reunindo camarões, lagostim, lagosta, polvo, lula, sururu e mariscos. O arroz absorvendo lentamente os sabores do mar. Os frutos do mar compondo uma verdadeira paisagem dentro da panela. Cada ingrediente trazendo sua própria textura, seu perfume e sua intensidade.

 

Era mais do que uma paella, era o início de uma viagem.

 

Na edição seguinte, embarcamos para Portugal, com um arroz de polvo caldoso, preparado com a própria água do cozimento, trazendo para o prato toda a intensidade do mar e a delicadeza dos tentáculos de polvo no ponto certo.

 

A terceira edição nos trouxe de volta ao Brasil.

Preparei uma moqueca de frutos do mar, valorizando os peixes da costa e os sabores que pertencem à nossa identidade litorânea.

 

A Quarta, um prato de memória afetiva: o camarão na moranga. Cremoso, acolhedor e brasileiro. Um prato que traz conforto à mesa e que encontrou naquele cenário de mar uma combinação perfeita.

E assim, a cada edição, a gastronomia acompanhava a música.

Um país – Um prato – Uma década – Uma nova lembrança.

Tudo isso diante de um cenário deslumbrante, em frente ao mar. A cada encontro, além dos pratos, havia histórias, música, nostalgia e novas amizades. Eu já não me sentia apenas um convidado, aos poucos, aquela mesa também passou a ser minha casa.

 

Na quinta edição, seguimos para a Itália, com uma das minhas massas preferidas: massa ao pesto com camarões. Um molho intenso e marcante, equilibrado pela delicadeza do manjericão, pela crocância das castanhas e pela presença elegante do queijo Grana Padano.

 

A massa agradou tanto que voltou em uma edição seguinte.

 

Dessa vez, preparei uma massa com molho al limone de limão-siciliano, crispy de bacon e camarões. Uma combinação de acidez, intensidade e crocância, novamente valorizando os frutos do mar, que pareciam conversar naturalmente com aquele ambiente de praia.

E as entradas também tiveram seu espaço ao longo das edições.

 

O ceviche esteve presente em diferentes momentos, assim como o vinagrete de mariscos, um dos pratos preferidos do anfitrião, DJ Marlboro.

 

Cada edição deixava um sabor.

Cada prato, uma memória.

Até que chegamos a 2026.

A última edição.

O funk atual.

 

E não poderia haver maneira mais simbólica de encerrar essa história do que voltar ao ponto de partida. Espanha novamente. E, mais uma vez, ela: a paella valenciana de frutos do mar.

O mesmo prato que abriu essa viagem agora retornava para encerrá-la. Não como uma repetição, mas como um reencontro. Como se, depois de atravessar tantos países, sabores, décadas e histórias, a gastronomia soubesse exatamente onde aquela jornada deveria terminar.

Antes dela, como entrada, preparei uma releitura do clássico francês steak tartare, transformando-o em um delicado tartar de salmão. Mas o grande momento era dela: A paella.

Ao longo dessa jornada, ela deixou de ser apenas um prato. Tornou-se minha assinatura dentro do Legado do Funk. Foi tamanha a identificação dos convidados com aquela preparação que, ao longo das edições, passei a ser reconhecido carinhosamente entre eles como:

— “Chef Paella” — rsrs. E confesso: – não poderia haver apelido mais especial.

Porque aquela paella já carregava muito mais do que ingredientes, carregava encontros, conversas, música, amizade e a memória de cada edição.

 

Tornou-se um símbolo.

 

Foram meses de sabores e descobertas. Uma viagem gastronômica que atravessou países, décadas e estilos, mas que encontrou sempre o mesmo destino: a mesa. Hoje, olhando para essa trajetória, percebo que O Legado do Funk também deixou um legado em mim.

 

Levo comigo a gratidão por cada convite, cada conversa, cada pessoa que conheci e cada prato que tive a oportunidade de preparar. E, principalmente, a gratidão ao meu amigo DJ Marlboro, por me permitir fazer parte dessa história e por transformar encontros em memórias que permanecerão muito além da música.

Por isso que amo a gastronomia.

 

Porque cozinhar é muito mais do que preparar um prato. É colocar sentimento em cada detalhe, é respeitar o ingrediente, é dividir histórias, criar conexões e transformar uma refeição em uma lembrança. A gastronomia me ensina, todos os dias, que o sabor passa pela boca, mas a verdadeira experiência permanece no coração. E, enquanto houver uma mesa para reunir pessoas, ingredientes para transformar e histórias para contar, continuarei cozinhando com a mesma paixão.

 

Porque cozinhar é a minha forma de amar.

 

Até a próxima Experiência à Mesa.

 

Por Chef Rafael Dutra

São Paulo/Rio de Janeiro – Brasil

 

Fotografia: Arquivo Pessoal Chef Rafael Dutra

 

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