Em um país onde a teledramaturgia é parte essencial da identidade cultural, poucos profissionais conseguiram deixar uma marca tão profunda, e ao mesmo tempo tão silenciosa, quanto Gilson dos Santos.
Arquiteto formado pela Universidade Gama Filho (1982) e especializado em Cenografia pela UniRio (1987), Gilson construiu uma trajetória sólida que atravessa décadas da televisão brasileira e do cinema nacional, participando de algumas das produções mais emblemáticas da dramaturgia da TV Globo.

Seu nome pode não surgir como protagonista nas aberturas, mas é ele quem constrói os mundos onde as histórias acontecem. Cada parede, cada textura, cada janela iluminada carrega, intenção, conceito e emoção.
A Arquitetura que Conta Histórias.
A base arquitetônica foi determinante para a construção de sua linguagem visual. Gilson sempre trabalhou a cenografia como extensão da psicologia dos personagens. Seus cenários não são apenas ambientes, são territórios narrativos.
Em O Clone, a recriação dos ambientes marroquinos e dos núcleos brasileiros exigiu pesquisa estética rigorosa e precisão cultural. O resultado foi uma ambientação sofisticada que se tornou referência na dramaturgia nacional, rendendo-lhe o 4º Prêmio Contigo de Melhor Cenografia (2002).

Já em Um Só Coração, a reconstrução da São Paulo das décadas de 1920 a 1950 revelou sua capacidade de dialogar com a história e com a arquitetura modernista brasileira, trabalho que lhe garantiu o 7º Prêmio Contigo (2005).
Gilson compreende que cenário não é pano de fundo. É linguagem, narrativa silenciosa.

O Realismo Poético da Dramaturgia
Em produções como:
*A Vida da Gente
*Flor do Caribe
*Sol Nascente
*Tempo de Amar

O Tempo Não Para, demonstrou domínio tanto do, contemporâneo quanto do histórico.

Em A Vida da Gente, a atmosfera de Gramado e Porto Alegre foi recriada com fidelidade sensível, criando uma estética intimista que dialogava com o drama humano da trama. Já em Sol Nascente, a cidade cenográfica litorânea mesclava referências orientais e brasileiras, evidenciando seu cuidado com identidade cultural e composição visual.
Seus trabalhos revelam uma
característica marcante.

O equilíbrio entre realismo e poesia visual.
Minisséries, Cinema e Grandes Construções.
Na minissérie A Casa das Sete Mulheres, o desafio foi transportar o público para o universo da Revolução Farroupilha, recriando ambientes históricos com autenticidade e força estética.
Em Maysa: Quando Fala o Coração, a ambientação atravessava décadas com elegância e precisão visual.
No cinema, destacou-se em Olga, reforçando sua competência em reconstruções históricas densas.
Mas foi em O Tempo e o Vento que a cenografia ganhou proporções monumentais. A cidade construída para o longa tornou-se tão impactante que chegou a ser cogitada como atração turística no sul do país.
Esse é o tipo de trabalho que ultrapassa a tela e invade a realidade.

Versatilidade e Trajetória
Desde os anos 1980, Gilson participou de produções marcantes como:
Sítio do Picapau Amarelo
Armação Ilimitada
Casseta & Planeta, Urgente!
Os Trapalhões
Também atuou em jornalismo, especiais musicais, teatro, exposições e projetos residenciais, demonstrando que sua criatividade não se limita à dramaturgia.

A Força Invisível da Cenografia
A cenografia é muitas vezes percebida apenas de forma inconsciente pelo público. Quando é bem feita, ela não chama atenção, ela integra. Ela respira junto com o roteiro.

Gilson dos Santos domina essa arte invisível. Seu trabalho equilibra técnica, estética, pesquisa histórica e sensibilidade emocional.
Ele compreende que cenário não é fundo, é narrativa.

Legado
Ao longo de mais de três décadas, ajudou a construir o imaginário coletivo de milhões de brasileiros. Casas, ruas, cidades cenográficas e interiores dramáticos que permanecem vivos na memória afetiva do público.

Gilson representa uma geração de profissionais que elevaram o padrão da cenografia brasileira a níveis internacionais. Seu percurso é um exemplo de dedicação, consistência e paixão pela arte de criar mundos.
Porque, no fim, Gilson dos Santos não constrói apenas cenários.
Ele constrói lembranças.
Constrói atmosferas. Constrói emoção.

E é justamente por isso que sua obra permanece, mesmo quando as luzes do estúdio se apagam.
Por/ Márcia Mabeck























