Meu nome é Anny Suelly, tenho 27 anos e descobri que não enxergava do olho esquerdo quando tinha apenas 5 anos. Foi em uma brincadeira com meu pai, que estava testando a visão dos filhos. Naquele momento percebemos algo diferente e, a partir dali, começaram as consultas médicas e a busca por respostas.O diagnóstico foi catarata congênita. Eu já havia nascido sem enxergar do olho esquerdo. Com o tempo também vieram o estrabismo e o descolamento de retina. Como a deficiência foi descoberta tardiamente, já não havia mais tratamento possível.Em casa, isso nunca foi um problema. Meus pais e meus três irmãos sempre me trataram com amor e naturalidade. A deficiência visual não era um assunto que me definia dentro da minha família.Mas tudo mudou quando comecei a frequentar a escola.Eu era apenas uma menina iniciando a vida social, querendo fazer amigas, brincar e me sentir parte de um grupo. Foi nesse ambiente que conheci o bullying. Vieram os apelidos:

“olho torto”, “zarolha”, “olho cego”. E, junto com eles, vieram também a vergonha, a dor e uma profunda insegurança.Apesar de sempre ter sido uma criança alegre, comunicativa e espontânea, dentro de mim começaram a crescer a baixa autoestima e a rejeição pela minha própria imagem. Eu me olhava no espelho e não gostava do que via.Na adolescência, durante o ensino fundamental, as provocações continuaram. Eu não era a menina elogiada da sala, nem a escolhida pelos meninos. Muitas vezes me senti como o “patinho feio” da turma. Ainda assim, sempre tentei manter minha alegria e construir amizades, e muitas delas permanecem até hoje.Fora da escola também houve episódios que me marcaram. Lembro de passar em frente a um comércio perto de casa e torcer para que um vizinho não estivesse ali, porque eu sabia que ele iria me chamar por algum apelido diante de outras pessoas. Eu passava de cabeça baixa, desejando apenas não ser notada.Teve também a fase da franja longa, usada para esconder o olho. Na época, aquilo me ajudava a me sentir menos exposta. Eu realmente acreditava que era feia. Lembro de muitas vezes chorar diante do espelho e me perguntar por que, entre meus quatro irmãos, eu havia nascido com aquele olho diferente.

Mas também lembro das palavras incansáveis do meu pai:
“Anny, você não é um olho. Você é muito mais do que isso. O olho faz parte de você, mas não define quem você é.”Minha mãe também esteve ao meu lado em todas as tentativas de tratamento, mesmo quando já não havia solução médica.Com o passar dos anos, cresci carregando muitas dores e inseguranças. Eu tinha dificuldade de me defender do bullying e, muitas vezes, acabava descontando minha frustração nas pessoas mais próximas. Isso trouxe relacionamentos difíceis e um vazio dentro de mim. Aos 17 anos e meio enfrentei outro momento muito doloroso: o divórcio dos meus pais. Cresci em um lar cristão, mas até então eu não conseguia me amar, e, de certa forma, também não conseguia acreditar que Deus pudesse me amar.Foi justamente nesse período difícil que tive um encontro mais profundo com Ele Comecei a entender que fui criada à imagem e semelhança de Deus. Que eu não era um erro. Que havia propósito na minha história. Descobri um amor que silenciou todas as vozes que, durante anos, tentaram me diminuir. Ali começou um processo de reconstrução da minha identidade. Aprendi a amar a Anny exatamente como ela é,com o olho deficiente, com o estrabismo e com toda a história que carrego. Percebi que aquilo que antes eu via como defeito também contava uma história de superação. Foi essa jornada que me transformou em uma mulher mais empática, sensível e atenta às dores de outras mulheres.

Hoje utilizo a moda como uma ferramenta de comunicação e transformação. Através do meu Instagram, converso com mulheres sobre estilo, autoestima e identidade. Porque acredito que a moda pode ser uma porta de entrada para algo muito mais profundo: uma transformação de dentro para fora.Também realizo encontros de mulheres em minha casa, onde compartilho sobre fé, identidade e o valor de reconhecer quem somos como filhas amadas de Deus.Hoje sou aquela mulher que um dia achei que nunca seria: estilosa, de cabelo curto, batom vermelho, acessórios marcantes e looks que expressam quem eu sou. Mais do que isso, sou uma mulher livre,livre para ser vista, livre para não me esconder. Minha missão é levar esperança, identidade e autoestima saudável para outras mulheres. Porque quando uma mulher entende quem ela é, tudo muda. E foi uma alegria compartilhar um pouco da minha história com você.
Por Anny Suelly
FOTO @annysuelly01
FOTOGRAFA. @rhannaluiza.fotografias























